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I can touch the sky...

Terça-feira, Julho 12, 2005
gente, agora eu estou aqui.

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Quinta-feira, Julho 07, 2005
Sem dedo furado
sem sangue encostado
fico apenas com a sua promessa
dita assim mesmo
no espaço entre os beijos
no intervalo entre os apertos
no encontro rápido
quando pouco se fala
quando muito se quer
quando sem pactos ou rituais
fico apenas com a sua palavra
acalmando e garantindo
que haverá uma outra vez.
Edu

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Quinta-feira, Junho 30, 2005
Fugir com você eu quero
Largar tudo e parar por aí
Nem que eu pare do lado de lá
E volte pela contramão...

Eu tô chegando
Eu jogo a moeda na mão
É cara ou coroa, nem sei
Se é para ir ou não ir

Eu tô chegando
Um giro, um salto mortal
Me larguei do avião
Cai bem perto de você...
Fernanda Porto

Eu tô chegando... vou ali brincar de ser feliz e já volto. Torçam por mim.

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Segunda-feira, Junho 20, 2005
A única coisa da qual eu tive certeza naquele 14 de junho qualquer, era de que estávamos entrando no começo do fim. Eu sabia que os dias que se seguiriam seriam mornos e cada vez mais distantes. Sabia que os contatos seriam reduzidos, a intimidade calmamente dilacerada. Sabia que eu travaria e seria uma daquelas garotas que não gosto de ser, mas que não consigo estapear e mandar ficar em casa em alguns momentos da minha vida. Aquela versão morna de mim mesma, sentada em cima do muro sem saber se pula pra dentro ou se sai correndo de uma vez pra fora das possibilidades. Sabia que eu voltaria àquela fase de pensar pelos menos dez vezes pra dar o ar da minha graça, culpa do medo de parecer vulnerável ou me sentir indesejada. Sabia que o fim dependeria única e exclusivamente de mim, porque você deixaria as coisas nas minhas mãos, como sempre fez. Se eu disser que não, você balança a cabeça horizontalmente concordando comigo. Se eu sumir, você pode até sentir, mas vai pensar o dobro de número de vezes pra aparecer. Nosso lindo e louco amor será transformado em amizade, coleguismo, lembranças vagas do tempo em que fomos felizes de verdade e choramos quando tivemos que ficar longe e achamos que iríamos morrer se assim continuasse, até que o tempo, o imprevisível tempo, ditasse as regras da nossa história e abrisse nossos olhos pro que realmente ainda tinha de vir. E nós não seremos mais nós, porque a florzinha parou de receber água e morreu seca e esturricada por falta de cuidados. E minha dúvida travestida de certeza será confirmada após algumas semanas de angústia e ansiedade, sentimentos que me assolam desde o maldito 14 de junho em que você me disse que nada ia nos separar. Você tinha razão. Nada, a ausência de atitudes, de contato, de sentimentos, ia acabar nos afastando mesmo. E eu que nada posso fazer contra a certeza dos dias que se seguirão, fico por aqui, ansiando por estar errada.

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Terça-feira, Junho 14, 2005
Eu sou só uma menina, estou longe de ser a mulher que gostaria. Porque se eu fosse uma mulher eu sairia voando agora pra te dar um abraço de meia hora e te deixar sentir que está tudo bem. Mas eu estou com medo, sabe? Tanto medo que hoje eu chorei na frente do espelho igual eu fazia quando era criança. Chorei porque você me disse o que eu nem esperava ouvir numa hora em que eu devia te carregar no colo e não o contrário. Eu chorei porque tive medo, muito medo de que isso vire pó. Tive medo que você me esquecesse, tive medo que você me deixasse. Tive medo de ser mais uma, tive mais medo ainda de ser somente aquela lembrança da foto que você nem guarda mais porque te arrastaram do teu lugar e você nem pôde reclamar. Tive medo de me sentir sozinha, tive medo de nunca mais te abraçar do jeito que sonhei. Tive tantos medos. Quando se trata de você eu sempre tenho muitos medos. Aí eu abri a sua foto e fiquei olhando cuidadosamente, enquanto alguém cantava no meu ouvido que 'agora é só você quem me faz cantar'. E quando as palavras fogem e eu preciso roubar as de alguém pra não parecer frágil, chorar é mais fácil e honesto.

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Quarta-feira, Junho 08, 2005
Muito pra mim é nada
Tudo pra mim não basta
Eu quero cada gesto
Cada palavra
Cada segundo da sua atenção
Faça isso por mim
Leve a dor pra longe daqui
Estou cansada de ouvir que eu só sei amar errado
Estou cansada de me dividir
O que é certo no amor
Quem é que vai dizer
O que falar, calar e querer?
Eu quero absurdos
Quero amor sem fim
Quero te dizer
Que eu só sei amar assim...

Eu só sei amar assim - Herbert Viana

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Quinta-feira, Junho 02, 2005
"Será que se eu fizer uma promessa pra Deus que nunca mais olho pra homem nenhum na vida, ele me deixa ficar com você pra sempre!?"

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Segunda-feira, Maio 23, 2005
# Assim, bem boba. #

Eu poderia escrever sobre tantas coisas, tem tanto acontecendo ao mesmo tempo que eu travo. O meu trabalho que cada dia me exige mais, mas me completa. As pessoas do meu trabalho que estão sempre comigo me ajudando de alguma forma. Tem o Cordeiro que me dá caronas de manhã, a Renata que chega sempre bem-humorada e que ontem descobriu que está grávida. Feliz, feliz. Tem o Rafael tentando me induzir a pecar, me trazendo lembranças terríveis de um tempo em que eu quis ser feliz, mas não tinha como. Tem a Maria querendo se separar e tão perdida com a idéia que até pros filhos pequenos já perguntou o que deveria fazer. Tem o André com suas mentiras sinceras sempre me interessando tanto. Tem uma porção de janelinhas azuis piscando ao mesmo tempo na minha tela. Muitas. Nem eu sabia que estava tão bem assim. Tem apostas pra ver quem consegue me pegar primeiro, se o Diogo ou o Rafael. É, fiquei sabendo sem querer. Aí tem a minha casa. A minha mãe linda linda cada vez mais mãe, cada vez mais minha. Minha irmã caçula desesperada com o vestibular e o absurdo das tabuadas, minha irmã primogênita sempre preocupada com a vida de todos, mais do que com a própria vida. Aí tem o meu cunhado, meu irmão, bobo, bobo. Tem o meu pai e o sofá. Sempre juntos. Ah, esqueci os problemas, as dívidas e as dúvidas. Meu pai. A paixão da minha vida. Aí tem minhas amigas que eu escolhi pra serem minhas e que a vida escolheu pra estarem comigo. A Marli, a Kariny, a Cris e a Fabi sempre próximas, a Valk e a Marcela sempre dentro, a Fabiana, a Catá e a Li longe, mas muito aqui. Aí tem a Madá que já me ama muito. Aí tem o meu Peter. Somente meu, sempre meu. Aí tem o Julinho que eu nem sei mais o que é de tanto que é. Tem o Fernando me assustando por me amar tanto. Aí tem o Bi que é muito homem, muito mulher, muito gente. Tem também uma pá de gente que aparece às vezes e some logo depois, mas que mexe. Toca, China, Márcio, Val. Tem os que eu nem conheço, mas que me brilham os olhos quando surgem na minha frente. Iaiá, Naty, Beta, Paty, Nina. Tantas. Tantos. Importantes da mesma forma. Aí tem eu. No meio disso tudo aí tem eu. Eu e meus aminoácidos pra ficar gostosa, minha malhação interrompida. Eu e minha dúvida capilar, se loira, se morena, se curto, se comprido. Eu e minha cama, meu quarto, meus livros, minhas dúvidas. Eu e minhas palavras, meus pensamentos, minhas loucuras. Eu e minhas músicas, Adriana, Bethânia, Rita, Carolina. Eu ninfomaníaca, apaixonada, amando muito, traindo muito, sendo ainda tantas que nem sei. Eu e minhas saudades de coisas que nem fazem sentido, meus planos de futuro, minhas viagens loucas, meus sonhos de abraços intermináveis e horinhas de plenitude. Aí tem os sentimentos todos. Amizade. Inveja. Rancor. Felicidade. E aí tem o amor. E pronto, tudo se encaixa.

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Quinta-feira, Maio 19, 2005
Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo
Nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é por que não acho o papel onde anotei o telefone que estou precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é por que fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é por que tá muito frio, não é por que tá muito calor
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que com você daria certo
Juntos faríamos tantos planos
Com você o meu mundo ficaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
E depois cresceriam, e nos dariam os netos
A fome que devora alguns milhões de brasileiros
Perto disso já nem tem importância
A morte que nos toma a mãe insubstituível de repente
Dela eu já nem me lembro
A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido,
As datas, fatos e aniversários passam
Sem deixar o menor vestígio
Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora
Pelo outro ouvido
Roubaram a carteira com meus documentos
Aborrecimentos que eu já nem ligo
Não é por que eu quis e eu não fiz
Não é por que não fui
E eu não vou
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos
Por que o nosso mundo estaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
Com seus filhos que depois nos trariam bisnetos
Não é por que eu sei que ela não virá que eu não veja a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la, mesmo que não tenha a mínima lógica esse raciocínio
Não é que eu esteja procurando no infinito a sorte
Para andar comigo
Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não é por isso que ela não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que eu sinto e o que eu sou
O problema é que eu te amo
Não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto
Juntos morreríamos, pois nos amamos
E de nós o mundo ficaria deserto
Eu vejo nossos filhos lembrando
Com os seus filhos que já teriam seus netos.

Com você meu mundo ficaria completo - Nando Reis

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Quinta-feira, Maio 12, 2005
# Sobre o que somos e o que dizemos ser #

E de repente tudo ficou muito perto, muito possível. Já não é mais de se arregalar os olhos quando interesses distantes se cruzam, exatamente porque hoje a distância que vivemos separa apenas os corpos, não mais as sensações. As vozes, as palavras surgindo instantaneamente, a imagem desfocada numa telinha 2X2, fermentam a massa daquilo que apenas esperava o momento certo pra crescer. As palavras rebuscadas do tempo em que era feio uma moça de família sair à rua desacompanhada, deram lugar à criatividade que obriga atingir caráter evidente se se quiser estabelecer algum tipo de interesse. Essa virtualidade do mundo em que vivemos nos permite ser tudo que quisermos, mas a realidade bate à porta e frustra nossas promessas de eternidade. Ali, por detrás daquela tela de letras, imagens e cores, escondem-se carroças de gente igual a todo mundo. Gente que ri de piadas sem graça, que chora suas mágoas no quarto escuro, que se cala diante de algo realmente desconcertante. Gente que toma um ônibus de manhã e esquenta o traseiro oito horas num assento que sabe mais de si que seu próprio leito de sono. Gente que se esforça pra escrever bonito, que maquia suas fotos pra parecer perfeito, que clica no search numa pesquisa pouco refinada, afinal, talvez o que se procura esteja bem mais longe do que se possa imaginar. E aí começam as estórias, novas estórias, muitas estórias preenchendo o imenso buraco que nossa alma oculta por não encontrar companhia. E é estória com E mesmo, características dos contos de fadas. E essas estórias nada mais são que desculpas pra não parecer carente, argumentos pra provar pro mundo que se pode despertar o interesse de alguém tão longe.
Não é o primeiro. Talvez não seja o último.
Optei por escrever minha própria história quando vi possibilidades além daquelas conversas simples e casuais, imbuídas de segundas intenções. E a mim, naquele momento, o que menos importava era onde meu 'elixir da solidão ferrenha' poderia se abrigar. Eu escolhi fazer minha ficção virar realidade, minha estória virar história e lutar com unhas e dentes pra que ela não morresse. E eu fico cansada porque eu tenho que ser linda, criativa, descolada, liberada e inteligente em tempo integral, qualquer TPM mal disfarçada ou bloqueio criativo pode ser fatal. Mas eu sou normal. Eu sou humana, sou mulher e infelizmente sou romântica e o tempo me joga na cara o que eu julgava ser capaz. Eu acordo mal humorada e odeio falar nas primeiras horas do dia. Eu mexo e remexo na cama durante o sono e tenho ciúmes até das minhas amigas. Eu vomito quando fico nervosa, odeio dividir minhas coisas, sou fã da preguiça e escuto Maria Bethânia no meu quarto quando fico deprimida, o que acontece quase sempre. Você não sabe, você não viu, você não teve tempo de responder se queria porque eu sequer lhe perguntei isso. Talvez minha realidade me assuste e possa te afastar e por isso sigo sendo quem você quer que eu seja, com minhas frases feitas no chat diário, minhas risadas forçadas pra aquilo que devo achar graça, com minha imagem cuidadosamente trabalhada no photoshop. Afinal, o que é usar mais uma máscara pra quem nem sabe ao certo quem se é?
Eu não sou perfeita. E tenho medo que você descubra meu segredo.
Você não é perfeito. E hoje, sem querer, acabei descobrindo isso.

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Segunda-feira, Maio 09, 2005
# 63 coisas que eu odeio em você #

Odeio não te encontrar on-line, ver o relógio indicar nove da manhã e você não piscar azul na minha tela. Odeio sua irresponsabilidade, seu descaso, sua tranqüilidade absurda diante de algo que você pode resolver se simplesmente fizer alguns movimentos. Odeio suas infantilidades, sua tendência a sentar na janela e ver a banda passar, sua falta de determinação, sua eterna espera. Odeio seu radicalismo, seu cenho franzido, seu pouco caso com o que não lhe interessa. Odeio suas constantes noitadas sem explicação, afinal, você odeia dançar, beber ou fumar, odeio imaginar suas noites ocupadas por outras coisas mais interessantes. Odeio imaginar que você chama outras pelo meu apelido, que atende outras pelo celular e se despede com um beijo enorme como quando fala comigo. Odeio seu celular sempre desligado ou fora do alcance. Odeio seu skate jogado na mala do carro pronto pra próxima criancice proposta pelos seus amigos sem futuro. Odeio gostar dos seus amigos, odeio procurá-los na tentativa de ouvir algo sobre você que eu ainda não saiba. Odeio seu eterno bom humor me impedindo de ficar triste se assim eu quiser estar, sua risada contagiante, sua capacidade de me deixar sem graça. Odeio como eu fico muda quando falo com você, como esqueço do que ia dizer quando você me conta quase sem respirar a última novidade do final de semana, como fico rindo abobalhada com suas piadas nem sempre tão engraçadas assim. Odeio você não me ouvir, seu silêncio durante meu monólogo, suas palavras engolidas pra não se mostrar vulnerável. Odeio você parecer estar comigo quando sei que não está. Odeio duvidar de você quando todo mundo me mostra que não tenho motivos pra isso. Odeio ter perdido o controle da situação, odeio me pegar fazendo planos com você, odeio varrer minha conta bancária só pra te ver enquanto você nunca fez qualquer esforço pra isso. Odeio ficar triste quando sinto sua falta, odeio deixar escapar um sorriso leve e natural quando leio seu nome na minha caixa de entrada, odeio esquecer da vida quando escuto sua voz. Odeio identificar nossa história com a de todo mundo que tem um amor distante, odeio escrever 'nossa' se nem eu mesma tenho certeza disso. Odeio ter aprendido suas gírias e repetí-las inconscientemente. Odeio chegar em casa e minha mãe perguntar de você cheia de diminutivos carinhosos. Odeio abrir suas 77 fotos diariamente e procurar detalhes que eu ainda não tenha percebido. Odeio inventar assunto pra falar com você. Odeio sua falta de esforço pra me ver, suas desculpas esfarrapadas, odeio acreditar piamente nas suas mentiras só pra me deixar em stand by. Odeio você me procurar derramando saudades depois de sumir por dias inteiros e odeio mais ainda eu ficar feliz com isso. Odeio achar graça nos seus defeitos, odeio você ser menor que eu, não ter aquele cabelo que me enche os dedos, não ter o rosto mais perfeito dos meus sonhos, mas ainda assim ser tudo o que eu quero na minha vida. Odeio pensar em você o tempo todo, acordar de madrugada com seu cheiro entranhado na minha memória. Odeio ter me tornado você. Odeio alimentar essa história como um cachorrinho longe do dono. Odeio amar você mais que eu. Odeio ter começado esse texto achando que não conseguiria passar de algumas linhas e perceber que já estou pulando pra segunda página. Odeio saber que nunca vou ter coragem de te mostrar isso, assim como tantas outras coisas que tenho escrito por aí. Odeio ser fraca quando se trata de você. Odeio estar geograficamente tão longe de você. Mas eu odeio, mais que tudo, amar tudo isso que digo odiar.

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Quarta-feira, Maio 04, 2005
# Carta pra Deus #

Se for verdade que você é meu amigo, acho que posso deixar de lado o formalismo e as letras maiúsculas quando te faço referência. Pensando bem, não deveria ter começado essa carta com esse advérbio de dúvida. 'Se', é pra quem duvida. E eu não duvido mais. Você me conhece como ninguém e sabe tudo que carrego no meu coração. Sabe das minhas dúvidas, da minha incredulidade, das minhas deficiências. Sabe que já praguejei um sem-número de vezes e questionei fatos inquestionáveis. Eu precisava ver, precisava tocar pra saber se era real. E você, bem, você não podia ser real; eu não te percebia em nenhum dos sentidos que me foi concedido. Eu precisava de respostas plausíveis pra tudo, me baseava na ciência pra explicar o que os outros entendiam como divino. Independente disso, tinha lá minhas crenças. Na verdade, eu estava na tênue linha que divide os que crêem dos que passam longe disso. Eu rezava antes de dormir, pedia sempre as mesmas coisas e agradecia pelo dia que tinha acabado. Só. Levava minha vida crente que era a dona do meu destino, que as coisas aconteceriam de acordo com o que eu fizesse. Em parte eu estava certa.
Minha mãe sempre esteve lá, me falando de você, ostentando uma fé inabalável, coisa que nunca passou pela minha racionalidade ser possível. Pra mim, ter fé era coisa de pessoas que não tinham esclarecimento, que precisavam se apegar a algo extra-sensorial pra explicar as adversidades que eles próprios criaram através de escolhas erradas no longo processo da vida. As missas me incomodavam, nada que se referisse a você me interessava. Eu estava bem comigo mesma, não precisava de você pra nada, só pra me proteger quando eu estivesse em perigo, porque aí você era o primeiro que eu chamava. Você deve estar pra lá de acostumado com esse tipo de gente. Eu era uma dessas pessoas.
Só que aí as coisas começaram a acontecer pra mim sem que eu fizesse qualquer esforço. Presenciei mudanças radicais de pontos de vista e conheci pessoas que me falavam de você com brilho nos olhos, sem fanatismo. E aí me peguei te pedindo coisas sabendo que você me daria. Identifiquei você na minha vida desde sempre e me senti uma idiota por ter desprezado sua companhia tanto tempo. Você tava ali, do meu lado, me pegando pela mão quando eu precisava, apontando pra mim no meio de tanta gente.
Você me escolheu.
E eu estava lá com todas aquelas mulheres e vi você claramente nos olhos de uma em especial. Foi tão grande o que senti, tão forte a surpresa de te ver assim tão perto que não conseguia falar. Chorava como uma descontrolada. Revi minhas dúvidas, queimei meus erros, enterrei minhas angústias, respirei fundo e segui em frente. Mais calma, mais certa do que quero pra mim, mais dona da minha vida do que nunca. E tudo começou a acontecer, não como eu queria, mas como você tinha planejado pra mim. Você me deu a compreensão que eu precisava pra aceitar a sua hora.
Eu não vou deixar meus cabelos tocarem a cintura, meus pêlos crescerem, minhas saias arranharem os joelhos. Não vou andar com sua palavra debaixo do braço e anunciar a boa nova pra todos que me cruzarem o olhar na rua. Não vou levantar a mão no meio de uma celebração em seu nome, me batizar novamente, virar carola de igreja. Não vou deixar de pensar o que penso, de dizer o que digo, de dançar, beber, sair, me dar pra quem eu acho direito. Eu continuo sendo a mesma de sempre. Só que agora eu estou segura. Eu sinto você comigo onde quer que eu vá e sei que me inclinará pelos melhores caminhos, vai me orientar a tomar as melhores decisões. Sei que afastará de mim todo o mal e atrairá tudo que possa me fazer bem de alguma forma, ainda que instantaneamente. Sei que você vai me deixar chorar, vai me deixar cair, vai puxar minhas orelhas com força quando eu pensar em errar, mas de alguma forma isso tudo vai servir pra eu aprender, crescer, amadurecer. Eu quero me tornar alguém melhor e já posso sentir as mudanças. As oportunidades estão vindo mais rápidas do que eu pensava. As pessoas estão surgindo como água na corredeira. A paciência vem chegando de mansinho, mas já posso sentí-la acalmando meu peito, como uma injeção cavalar de valium na veia. É, você está comigo e me permite ser eu mesma, sabe que eu amo você do meu jeito, que te carrego na minha vida, que te arrasto no meu coração. Amor é isso aí. O resto é qualquer coisa.

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Quinta-feira, Abril 28, 2005
porque as vezes eu me sinto assim precisando lhe falar e as palavras querem sair de mim assim sem pontuação somente para lhe fazer sentir aquilo que logo irá provar meu beijo que irá fazê-la perder o fôlego e querer sempre mais e mais mas eu sei que esse rebuscamento de minhas palavras podem ser prejudiciais aos seus olhos e ao seu cérebro mas com certeza me fará bem pois estarei mais leve de saber que falei escrevi me pronunciei pois as noites têm sido difíceis pra mim Van pois eu encosto minha cabeça no travesseiro e olho sua foto que imprimi para os momentos de sempre pois eu sempre penso em você a toda hora a todo momento você entrou em minha vida sem que eu houvesse falado aos anjos que me ajudassem a embalar essa paixão e agora tenho que suportar essa barra sozinho e saiba que isso me faz um bem danado pois eu sinto que ser homem é justamente se sentir um súdito de uma mulher como você veja só você já me domina me tem me sabe me ousa me consome deliciosamente me conduz me acalma me excita me recria me sufoca me incita me tudo mas é difícil querer que você me tudo e você estar longe mas eu transformarei esse mundo em uma caixinha de fósforos só para estar pertinho de você te espreitando te sentindo te dando força te iluminando te guiando e eu tenho que ser maior que tudo para não ter medo de imaginar você encontrando seu príncipe encantado pois eu crio todos os dias um conto de fadas só pra nós e não seria justo que no final não aparecesse um "e foram felizes para sempre" mas mesmo sabendo que às vezes as coisas realmente não são justas eu jamais deixarei de acreditar pois acredito no que sinto sobre você.
Eu te adoro Vanessa Gomes. Eu te amo sim pois isso me consome a cada dia e eu me sinto você.

Do SEU ...

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Segunda-feira, Abril 25, 2005
Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Chico César (no caso, Maria Bethânia cantando baixinho no meu ouvido...)

Restos de um final de semana mais longo do que deveria...

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Quinta-feira, Abril 14, 2005
# Epitáfio #

Se você me disser que sim, eu vou. Eu fecho os olhos e pulo, abro os braços e vôo.
Se você me disser que quer, sim, eu quero. Eu me viro no avesso e salto além das pernas, corro sobre a água e te abraço na linha de chegada.
Você é mais. Mais que você, até mais que eu.
Você me tira o peso da vida, o piano dos ombros. Você se esconde comigo por trás dos carros estacionados pra que o diabo não nos veja. Você me deixa rezar baixinho no meio da noite pra que nem Deus me ouça. Estamos entre o céu da morte e o inferno da vida e somos absurdamente abençoados por Ele. Você senta no seu sofá e me tem nos ouvidos por alguns segundos, desliga o telefone e ri um riso de satisfação, de merecimento, corre pro banheiro, se olha no espelho e fica tentando entender como foi que tudo aquilo se deu.
Estranho seria se eu não me apaixonasse por você. Acho que quando isso foi escrito alguém te olhava do parapeito de um daqueles edifícios que te rodeiam. Você é luz, é certeza de felicidade pra sempre, porque só de ter você do lado já se pode dizer que é feliz. Suas coisas de garoto se misturam aos seus passos largos de homem que sabe o que quer, divide seu quarto entre skates, baixos e pranchas, enquanto aquele mocassim descansa sob a cama, como um estranho no ninho. Não é sua cara, aquilo não é pra você. Mas é seu, assim como eu que também repouso numa cama que não é a minha. O meu cheiro já sumiu dos seus lençóis e tenho medo que você se acostume a viver sem ele. Eu continuo tentando manter o seu bem preso em mim, embora seja mais difícil do que eu poderia supor.
Me liga agora. Me diz que vem. Fala que vai me levar embora com você porque é só isso que eu estou esperando. Fala que vai me tirar da minha vidinha sem graça e a gente vai ser feliz junto espalhando caixas de pizza pelo corredor do nosso apartamentinho apertado que mal nos cabe de pé. E a gente vai dormir grudado no chão, no tapete que a gente ganhou de presente e eu não vou mais querer travesseiro nenhum porque tenho você pra me dar conforto. E a gente vai se abraçar bem forte de madrugada quando o frio nos castigar e eu não vou sentir saudades de nada que deixei pra trás porque você vai ser minha vida. E a gente vai tomar Quik o dia inteiro e você vai lavar meus cabelos debaixo do chuveiro, vai dançar comigo todo sem jeito a nossa música e eu vou rir e a gente vai parar porque não consegue mais manter o ritmo porque a gente não tem ritmo, porque você não dança, você senta em puffs e me olha de longe enquanto eu danço toda sensual querendo te chamar a atenção. E você vai me deixar usar suas toucas, me esquentar com suas camisas, vai sair comigo no meio da noite pra me comprar um Mc Lanche Feliz e vai rir da minha cara porque eu não vou querer se a surpresa não vier. E eu vou te abraçar dentro do carro num abraço sufocante e o sinal vai abrir e os carros vão buzinar e a gente vai mandar o mundo se fuder porque só o que vai importar é aquele momento e mais nada, porque eu sou você e você não cabe em mim de tão grande que é.
Ah, meu amor, eu penso em você a cada momento que respiro. Eu penso em você até quando penso em outra pessoa. Eu vejo você até nas minhas traições que não são traições, mas que pra mim sempre soam como se fossem. Eu sinto você em cada lufada de ar que me invade o peito de manhã e fico tentando imaginar seus passos. E eu me sinto suja e indigna porque acabo me dando demais, mesmo quando me dou de menos. Você me trava a língua, planta borboletas no meu estômago, arrasta meu coração pra ponta da garganta. Você me emudece, me cega, me ensurdece, me desconcerta e você nem existe porque você não está aqui. Eu escuto coisas de você, eu vejo e revejo suas fotos, eu dou conversa pros seus amigos e embarco em histórias sem sentido só pra ver no final que o sentido que eu procuro está além do que posso ter entre meus dedos. Só pra ver que você é o meu sentido, o resto é fuga, o resto é tudo máscara, eu sou aquela que não saliva quando tem medo e que grita mais do que deveria na hora H, eu sou a menininha com a blusinha punk se despedindo no aeroporto, fugindo do seu olhar pra não pedir pra voltar e jogar tudo pro alto, ouvindo sozinha aquela música de filmes com final triste no corredor da sala de embarque. Porque no final a mocinha teve que ir embora e deixou o mocinho com os olhos cheios d¿água na cena mais inimaginável da vida deles.
Eu não valho nada. Eu não mereço alguém como você e você está sozinho porque me espera mesmo sem saber, porque eu estou no purgatório da vida me purificando pra merecer o paraíso que é estar com você, mas eu não consigo me purificar porque o diabo me cutuca e cada vez mais eu mergulho na lama e eu não quero sair dela porque ela é quentinha e excitante, ela me faz suja, mas eu acho que gosto mesmo de ser suja. Eu minto pra você, eu escondo tudo de podre que se passa na minha cabeça e na minha vida e olhe que não é pouca coisa, eu bebo pra ter desculpas pra ser louca e fumo pra que todos me olhem e fodo pra sentir que minha vida é minha e que faço dela o que bem entender e choro doída no final da noite quando me dou conta que a única coisa que quero é que você me resgate da sarjeta e me diga que está tudo bem, que agora eu já posso ser eu mesma e molhar seu ombro enquanto sinto a paz do maior abraço do mundo, dos braços mais fortes do mundo, do homem mais perfeito do meu mundo.
Eu amo você, sabia? E amo tanto que agora até a página virou pra eu poder falar isso de outro jeito. Eu amaria você por cada segundo da minha vida e teria medo de te perder e teria medo de te trair e teria medo de tanta coisa, menos de ter medo disso tudo. Mas ainda assim eu te amaria, entende? Amor não rima com prazer, amor rima com você. E você é a fusão perfeita disso tudo. Você consegue ser homem, ser menino, ser louco, ser bicho e ser gentleman e isso tudo ao mesmo tempo. Você consegue me fazer rir e chorar porque tudo que tenho é a sua palavra e a sua voz e isso me mata e eu preciso de mais e eu quero mais porque o meu tempo já passou e eu não sei esperar. Mas deixa eu dizer de novo que amo você porque não sei se vou ter essa chance mais uma vez. Ás vezes você me parece tão longe do meu alcance que eu tenho medo daquilo tudo ter acabado ali, embora ressoe no meu peito até hoje. Às vezes você me parece tão perto das minhas mãos que eu tenho certeza que ainda temos muita coisa pra viver juntos. Eu joguei os dados, fiz minhas previsões e paguei pra ver, disse que segurava a onda e que minha vida não pararia, mas ela parou porque eu não sei mais quem sou e nem sei se tenho saudade daquela menina de poucos meses atrás. Porque você mudou minha vida, escancarou meu riso, brilhou meu olhar parado no meio do nada quando revejo nosso filme tão imperfeitamente perfeito, cegou meu olhar crítico pras barreiras nos caminhos, me fez agir como uma adolescente ligando duzentas vezes pro seu celular desligado só pra ouvir sua voz na secretária eletrônica. Você me diz que eu roubei a sua paz quando fui embora só que eu deixei ela cair em algum lugar, porque eu já não tenho mais a minha própria paz. Me deixa pelo menos acreditar no que eu sinto, prometo que vou ficar quietinha na sua vida sem fazer barulho, eu só quero ficar perto. Prometo que não vou furar meus olhos, prometo que não vou te deixar me notar, eu só quero sair da sua gaveta e ficar imortalizada na sua mesinha de cabeceira. Me deixa ser aquela florzinha que você guarda até hoje pra me manter por perto. Mas se você quiser e se você deixar eu posso ser real, posso ser eu e posso ser você. Eu só quero que isso não morra, só quero que isso dure pra sempre, só quero que você me ligue numa terça feira à tarde pra me dizer que percebeu que não dá pra ficar sem mim, que eu juro que solto um beijo no ar e deixo o vento me levar pra onde a felicidade quer que eu esteja.
E eu juro que queria agora te ligar e ler tudo isso pra você ou então escrever tudo lindo e em cor de rosa e te pedir pra ler no quarto quando você estivesse sozinho, mas eu não posso, eu não consigo, eu temo, eu sou fraca e corro quando sinto o perigo e se você me deixar por culpa minha nada mais vai ter graça e eu vou virar uma puta fácil e vou me dar pra todo mundo pra tentar preencher o vazio que vai ser minha vida sem você. Mas mesmo que você me deixe eu continuo tendo você porque eu te criei dentro de mim, eu plantei sua sementinha na minha barriga ela germinou e agora está saindo pelos meus poros e pra que essa árvore morra você vai ter que me matar porque a raiz já se alastrou por tudo que é canto. Tarde demais pra sair ilesa. Eu já pulei no precipício e espero você no nosso lugar, em algum lugar, em qualquer lugar.

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Sexta-feira, Abril 08, 2005
# Tempo, desejo e otras cositas más. #

Estamos sob um mesmo céu.
Minha vida anda mesmo que eu não faça qualquer esforço pra isso. Ainda não sei fazer o tempo parar, embora os minutos passem preguiçosos e minha ansiedade grite pedindo pra que o tempo chegue logo.
O tempo certo.
Difícil falar de tempo. Ele é que é o senhor de todos os sentimentos, na verdade. Ele é quem dita as regras de tudo que há de vir. Nada mais sou que escrava desse mesmo tempo que se arrasta ao meu lado, enquanto eu tento puxá-lo pelas mãos, mas ele pesa mais que eu e não me deixa controlá-lo. Odeio não ter o controle da situação, me sinto um mero fantoche em mãos desconhecidas.
Suas mãos desconhecidas.
A razão me pede pra parar, o desejo me manda fechar os olhos e abrir os braços na ponta do abismo. Você me fala de algo que não conheço e me assusto como uma garotinha dormindo num quarto que não é o meu. Você invade o meu quarto no meio da noite com uma fábula nada infantil e me arrasta pelos cabelos dos meus sonhos de criança. Você me obriga a ser mulher, a ser fácil, a ser escrota e eu percebo que há em mim bem mais dessas mulheres do que eu podia permitir.
Toda mulher tem um pouco de santa.
Toda mulher tem um pouco de puta.
Todo homem tem cheiro de sexo e vende até as cuecas pra conseguir algo realmente excitante. Sussurra no telefone, faz promessas de amor, escreve poemas, cita mitos da literatura, me engessa e me põe no alto de um pedestal, quando tudo o que ele quer é um pouco de sexo realmente instigante que o faça sentir o macho dominador.
Eu não me deixo dominar.
Eu não me engano com meia dúzia de palavras bonitas quando sua realidade me aparece diante dos olhos sem que eu tenha movido uma palha pra que isso acontecesse.
Você não me quer.
Você não quer o que eu digo, você não quer o que eu penso, não quer minhas fraquezas e minhas limitações. Você não quer minha cara inchada de manhã, meu mau humor em alguns dias do mês, minha mãe nos finais de semana, minha ansiedade, meu fracasso.
Você me quer.
Você me quer corpo, você me quer alma, você me quer sussurros e fantasias inimagináveis. Você me quer fábula, estórias da carochinha, novidades da Buttman, sex shop.
Lamento informar, eu sou mais que sexo. E preciso de alguém que queira o pacote completo.

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Quinta-feira, Abril 07, 2005
Na porta

Deixo na porta meus temores, pois sei que existe gente nesse mundo com muito medo de ter medo da vida. Gente assombrando as vizinhanças, altas em anfetaminas, andando por entre os carros estacionados, vendo estrelas um pouco acima da cabeça, com medo de tentar. Medo de respirar mais fundo, ou de dar um passo em falso. Medo de abrir as mãos, ou de entrar em queda livre, sem uma visão muito nítida do chão. Quão fundo é o poço, quão profunda é a sua solidão? Quantas palavras que você engoliu, com medo de vomitar? E quantas vezes acordou com decisões tomadas, e dormiu com arrependimentos acumulados, apenas porque da Caixa De Pandora, só valoriza a esperança, e confia demais no futuro. Um futuro este que não deve ser confiado, como acreditar em algo que não foi concretizado?
Deixo na porta minhas desilusões, pois sei que elas são frutos da minha auto-insuficiência. Tem gente que gosta de dormir, para esquecer tudo o que aconteceu. Como se num piscar de olhos, ou num gesto simples de amor, tudo pudesse ser curado; desde aquela dor de cabeça que te deixou atordoado, até mesmo a lua que insiste em ficar pendurada lá no alto. Mas ela não irá descer, enquanto você acreditar que ela é seu único amor. Pois ela ama todos, mas é uma alegoria, e só anda com quem realmente sabe o sentimento que ela resgata, quando existe muita dor. E o tempo entre um torpedo que atravessa a humanidade, ou uma folha caindo ao vento, relativamente, é o mesmo. O seu fechar dos olhos, a lágrima que cai do seu rosto, as palavras rabiscadas num papel molhado, esse espasmo de palavras, num soluço engasgado. Nada disso irá fazer você ficar bem.
Deixo na porta meu tempo, pois sei que tentar matá-lo, não irá acabar com esse tormento. O melhor à fazer é domá-lo, e mostrar para ele, que não é ele que passa, sou eu que estou passando por ele, vendo o dia morrer entre minhas mãos, contemplando a escuridão. Nós chegamos tarde demais, nossas bocas estão arfando, mas enquanto ele continuar na minha cabeça, será ele que estará me domando. Não posso deixar meu medo por ele, tomar conta de mim. O mundo vira as costas quando você aperta o botão da sonolência, e aquela história tão penosa que você está escrevendo, ninguém lerá, com certeza.
Então deixo minha anuência na porta, e que ela fique lá de braços cruzados, esperando qualquer traço de arrependimento, concordando com a mente, que reclama com o corpo, que conclama os meus sonhos, e todos os sentidos postados perante mim. Quanto tempo faz, que ninguém te vê chorar? E olhando assim, até que não é tão ruim. Olhando assim, não é um derrotar, mas só você sabe até onde você pode chegar. Porém, quero seus beijos, com certeza de que com eles empunhados em meus dentes, posso lutar, pela língua que mais explora, pela saliva que mais demora para nos dominar.
Deixo essas palavras por aqui, neste momento que o corpo queda, e que os dedos já não sabem qual direção devem seguir, apenas tendo certeza de que se seus olhos refletem o luar, as nuvens dos meus, sem duvidas, podem te completar. Eu ainda estou aqui, se você quiser, com minha lanterna, e minha capa de chuva, que tenta me proteger das lagrimas que caem perenes do seu olhar. E está vendo aquele cavalo ali, maltratando aquela flor, que está sendo pisada e despetalada? Mais cedo ou mais tarde, todo cavalo selvagem, irá ser domado, e alguém irá poder cavalgar.

Thiago Carmignani

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Segunda-feira, Abril 04, 2005
Agora eu sei o que é o amor.

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Quinta-feira, Março 24, 2005
"Você faz parte de minha realidade e eu agora, neste exato momento, sei que serei real para você. Existimos, Van. E hoje eu quero que saiba que penso em você todos os dias, a cada minuto. Imagino o que está fazendo, o que está comendo, com quem está falando, para onde está indo, o que está lendo, o que está pensando. Estou com você. Em pensamento. E o intervalo entre um e-mail e outro é o que me alimenta. Hoje sou o que você precisa. E o seu precisar me move."

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Segunda-feira, Março 21, 2005
# A Hora Certa #

Certas pessoas não deveriam envelhecer. São pessoas que têm sede de certezas, intensidade viva correndo nas veias, jamais suportariam a inércia de certas fases da vida. Pessoas que vivem cada momento com a mesma impetuosidade de quem não sabe o que virá adiante. Colecionam rugas e marcas na pele de cada noite perdida, cada lágrima grosseiramente gritada, cada grito doídamente sofrido, cada sofrimento propositalmente procurado. Essas pessoas cantam no escuro, sobem na mesa e exigem atenção e você não consegue desviar o olhar delas. Essas pessoas encharcam o fígado de tudo que é bom pro instinto, entopem as veias de tudo que é bom pra língua, infestam o pulmão de tudo que é bom pra mente, queimam as narinas em busca de inspiração, talvez um pouco de paz no meio dessa confusão toda criada por si próprios. Essas pessoas abrem os braços na beira do abismo, não aceitam o convencional, o regrado pela sociedade dita normal, burlam Leis, fogem de todas as normas, legitimam suas próprias convicções. A intenção nem sempre é ser um nome na história, mas sua capacidade de agir na mesma velocidade do pensamento imprime seus nomes veementemente nas páginas da vida. Suas vidas viram filmes, seus nomes viram mantras, seus filhos viram objeto de adoração. Pra essas, a morte prematura é bem vinda.
Na semana em que Elis completaria 60 anos, tentei imaginar se hoje ela seria uma senhora tranqüila de cabelos brancos, sentada em sua cadeira de balanço ninando seus primeiros netos. Ela e tantos outros anônimos que se foram cedo depois de uma vida longa, enlouqueceriam quando olhasse para os lados em busca de certezas e só encontrasse conveniência.
Ninguém sabe qual o momento em que a morte deve chegar, mas o fato é que a vida é tão perfeita que até o fim dela vem na hora certa pra cada um. A gente sofre, se desespera, quer lutar conta os fatos, mas é tudo perfeito. Essas pessoas não suportariam o marasmo de uma vida longa e viveram em poucos anos tudo o que milhares de pessoas com muito mais tempo de vida não chegam a viver. Tantos nomes conhecidos, tantos outros que eu jamais poderia citar. A verdade é que eu tentei me imaginar daqui a 30 anos e quase cortei os pulsos quando percebi que não sei se agüentaria olhar pro sofá do lado procurando aquele amor que eu sempre quis na vida e encontrar um certo barrigudo roncando no sofá.
Puts, não.
Estou longe de ser uma dessas pessoas de vida intensa, tampouco um mito, mas talvez o que tenha de similar entre nós seja a mesma sede de certezas. E completar cinqüenta e poucos anos sem saber se o cara deitado do outro lado da minha cama tá comigo porque me ama ou porque é conveniente a essa altura da vida, definitivamente não é o que eu sonhei pra mim. E aí eu tive medo de acabar com a boca cheia de formigas ainda com a pele esticadinha porque a vida sabe que eu acabaria morrendo de desgosto se tivesse de amargar uma vidinha meia-boca. Sei lá. Eu e minhas teorias. Mas que a vida é perfeita e sabe a hora certa de se despedir da gente, ah, disso eu não tenho dúvida. E a mim só resta esperar. E reforçar meu estoque de Renew.

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